Crônicas e Artigos

Micronarrativa e pornografia

Marcelo Spalding


Encontrei o orgasmo da literatura. Foi quando comecei a estudar a micronarrativa ¬Ė ou microcontos. Em busca de uma met√°fora para explicar a micronarrativa e compar√°-la aos demais g√™neros, cheguei a conclus√£o de que a leitura de um livro pode ser comparada ao ato sexual, e o orgasmo seria, a√≠, o que os doutos antigos chamavam de cl√≠max (tamb√©m consegui uma compara√ß√£o com o futebol, em que o cl√≠max seria o gol, mas esta analogia mais pornogr√°fica me pareceu melhor pela universalidade e pol√™mica). Avante, ent√£o.

J√° se disse que micronarrativas s√£o narrativas muito pequenas. Alguns citam ¬ďUm Ap√≥logo¬Ē, de Machado de Assis, como um pioneiro deste g√™nero, mas a narrativa do mestre ultrapassa 500 palavras, al√©m de estar inserida num contexto s√≥cio-cultural completamente diferente daquele em que surge e se afirma a micronarrativa contempor√Ęnea. A raiz do g√™nero estaria no minimalismo norte-americano, que gerou um Raymond Carver inspirado na concis√£o de Hemingway e reducionista como s√≥ ele. Da√≠ nasceu o termo Flash Fiction, que abarcaria contos curtos de at√© 1000 palavras. E com a redu√ß√£o cada vez maior do tempo de leitura e do tamanho dos contos, batizaram os norte-americanos de micro-fiction uma fic√ß√£o produzida com at√© 300 palavras.


Para entender como √© poss√≠vel uma narrativa t√£o curta, recorremos ao sexo. O que caracteriza uma rela√ß√£o sexual completa (n√£o importa aqui se boa ou ruim) na cultura ocidental? O orgasmo, sem d√ļvida. Pode haver rela√ß√£o sem orgasmo, mas n√£o se diria que seja completa. Mas pode haver sexo sem preliminares, at√© sem beijos, j√° diria o vampiro de Curitiba, desde que haja orgasmo. Pois bem, o mesmo ocorre com a micronarrativa.

Enquanto o romance é uma relação sexual profunda, calma, em que os parceiros tocam-se com carinho e perícia, beijam-se demoradamente, procuram os sexos com as mãos, um aperta os seios contra o peito, outra arranha as costas com a ponta das unhas, para finalmente haver a penetração e o gozo, a micronarrativa é a parte da penetração e do gozo. A rapidinha.


Provavelmente a sensação de prazer será maior na primeira relação, em que todo o clima criado pelo casal culminará num êxtase profundo. Exatamente a sensação do leitor ao final de um bom romance: inesquecível. Isso não quer dizer que o casal não goste muito, eventualmente, da relação fugaz e ardente de poucos minutos, menos de um minuto. O casal pode, por exemplo, estar há semanas sem se ver, provocando-se mutuamente por telefone, influenciados por um filme lascivo da TV, pensando na modelo do outdoor ou simplesmente com pressa para não perder o avião.


√Č prov√°vel que antigamente, no tempo dos contos de diversas p√°ginas de Machado, o sexo tamb√©m fosse mais longo. As rela√ß√Ķes, os passos, os bondes, a vida era mais devagar e por isso o espa√ßo parecia maior. N√£o por acaso o s√©culo XX inventou a machete e o lead nos jornais, o slogan na publicidade, o refr√£o na m√ļsica, o avi√£o, a internet. O tempo do mundo acelerou √† medida dos autom√≥veis e, em pleno s√©culo XXI, parece impens√°vel algu√©m ficar horas lendo uma √ļnica narrativa como O Tempo e o Vento, de √Črico Verissimo.

Al√©m da pressa, o fato de as pessoas estarem acostumadas e at√© extenuadas de narrativas contribui para a possibilidade de um contato mais fugaz com a literatura sem que se perca o prazer deste contato, assim como o erotismo dos tempos modernos acelera rela√ß√£o, penetra√ß√£o e orgasmo de qualquer amante em condi√ß√Ķes naturais (n√£o vale praticantes de yoga ou consumidores de Viagra).

No Brasil, o primeiro exemplar de ¬ďrapidinhas¬Ē foi chamado pelo seu autor de minist√≥rias. √Č de Dalton Trevisan e foi publicado em 1994. Eis uma destas ¬ďrapidinhas¬Ē n√£o batizadas:

Assustada, a velha pula da cadeira, se debruça na cama:

¬Ė Jo√£o. Fale comigo, Jo√£o.

Geme l√° no fundo, abre o olhinho vazio:

¬Ė Bruuuxa... diaaaba...

¬Ė Ai, que al√≠vio. Gra√ßas a Deus.


Em trinta palavras o narrador apresentou personagens em movimento dentro de determinado espa√ßo, caracterizando o b√°sico de uma narrativa. Ainda que n√£o estejam definidas as personagens nem delimitado o espa√ßo, entende-se tratar de um casal de idosos em sua casa. E isso basta. Provoca o riso no leitor, terminando a rela√ß√£o. √Č fugaz, provavelmente seja esquecido at√© se chegar ao final do livro, mas ficar√° a impress√£o geral do conjunto de narrativas.


Nos anos seguintes, diversos livros de ¬ďrapidinhas¬Ē, ou micronarrativas, foram publicados no pa√≠s e alguns, inclusive, premiados. Entre agosto de 1998 e dezembro de 2001, Jo√£o Gilberto Noll publica 338 pequenas narrativas na Folha de S. Paulo sob o t√≠tulo de ¬ďRel√Ęmpagos¬Ē, textos que mais tarde, em 2003, seriam reunidos e publicados pela Francis no livro M√≠nimos, m√ļltiplos, comuns, Pr√™mio Academia Brasileira de Letras em 2004. Em 2001, Luiz Rufatto surpreende com Eles eram muitos cavalos, onde conta 70 hist√≥rias, por ele chamada de ¬ďflashes¬Ē, da cidade de S√£o Paulo no dia 9 de maio de 2000, e fatura o Pr√™mio Machado de Assis da mesma Academia. No mesmo ano Fernando Bonassi publica o √≥timo Passaporte, relatos de viagem em forma de micronarrativas que v√£o muito al√©m de relatos. Mas precisariam de mais alguns anos para que o reducionismo na fic√ß√£o chegasse ao seu √°pice, uma radicaliza√ß√£o enriquecedora para a compreens√£o e estudo da micronarrativa: Os Cem Menores Contos Brasileiros do S√©culo, organizado pelo escritor Marcelino Freire em 2004.

A antologia traz cem contos de at√© cinq√ľenta letras de renomados autores brasileiros contempor√Ęneos como Glauco Mattoso, S√©rgio Sant¬íAnna, M√°rcia Denser, Miguel Sanches Neto e, claro, Fernando Bonassi e Luiz Rufatto. √Č nessa obra que se entende a ess√™ncia do conceito de ¬ďrapidinha¬Ē:

Uma vida inteira pela frente.

O tiro veio por tr√°s.


O texto de C√≠ntia Moscovich tem dez palavras, sem t√≠tulo nem qualquer outra refer√™ncia. E a um leitor contempor√Ęneo, acostumado com Rubem Fonseca e a viol√™ncia urbana, encerra todo um significado. N√£o h√° descri√ß√£o alguma assim como na ¬ďrapidinha¬Ē n√£o h√° perfume. As personagens n√£o t√™m nome, assim como na ¬ďrapidinha¬Ē. N√£o h√° cen√°rio, ou melhor, o cen√°rio pode ser qualquer um. J√° apresenta√ß√£o da obra, √ćtalo Moriconi afirma: ¬ďalgu√©m j√° disse, poesia √© uma frase ou duas e uma paisagem inteira por tr√°s¬Ē. E deve ter havido algu√©m ¬Ė provavelmente um homem ¬Ė que tenha dito: ¬ďsexo √© orgasmo e uma enrola√ß√£o inteira antes¬Ē.

Evidente que a analogia sexo/narrativa é mais humorada do que científica. Mas consegue, além de ser descritiva, dar uma pista para o juízo de valor dessa nova estética. Em meio a uma vida sexual repleta de beijos, carícias, abraços e massagens, há de haver momentos de rompante sexual e transas alucinadamente rápidas. Mas não serão a regra, sob o risco de banalizar o orgasmo e tirar dele seu melhor: a intensidade. Assim o é com a micronarrativa: em meio a aparente mesmice dos romances, novelas, contos, filmes a que somos submetidos, cai bem a velocidade alucinadamente rápida da micronarrativa. Mas não pode ser ela a regra sob o risco de banalizar a narrativa e dela tirar seu melhor: a intensidade.

 

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